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O Vazio Que Sobra

por P. Barbosa, em 24.03.13

Não sou a vontade de comer e que alimenta o meu corpo. Mexo as mãos e abro a boca por ordem interior. Sinto o doce sabor da comida como recompensa pela obediência, ou a fome agonizante como castigo, tal e qual como quem treina um cão.

 

Não sou a vontade do sexo, nem do seu sucedâneo engano chamado amor, que procura apenas a necessidade prática da multiplicação. O dealer que vive comigo oferece-me gratuitamente as primeiras doses de heroína antes de me usar o resto da vida.

 

Não sou a vontade de viver, necessidade material e objectiva do meu corpo e que, por ignorância e cobardia, assumo também como minha.

 

Não sou a vontade de morrer, vontade que sobressai quando todas as outras desistem de querer.

 

Não sou o meu coração que se movimenta por simples instrução.

 

Não sou os meus membros pés e mãos, que me levam por este mundo e que obedecem apenas às vontades que os controlam.

 

Não sou a vontade de ficar velho, vontade essa maior que qualquer homem, vontade de um universo, de uma natureza maior que não é possível ser compreendida, apenas sentida.

 

Não sou a boca que fala, não sou as palavras que de lá saem, e que são apenas as representações materiais das vontades que vivem cá dentro, mas que não são minhas.

 

Sou o vazio que sobra disto tudo, o ponto equidistante entre vontade, palavra e corpo. Sou a simples intersecção imaterial das linhas invisíveis que os ligam, o centro de gravidade que olha e vê estas coisas à sua volta e, se tiver sorte julga-as por suas, se tiver azar compreende a verdade e se angustia, sem saber afinal o que é e para que serve.

 

Sou um vazio que sabe que é vazio, mas que não é nada.

 

Fecho os olhos e finjo? Abro os olhos e sofro?

 

Será isto uma alma? 

 

Quem sou eu?

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publicado às 17:45



Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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