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É um monte de ossos. É um homem inteiro.

por P. Barbosa, em 24.09.13

(...)

 

 

Dizia,

 

Algures, algures em Janeiro de 1986,

 

Tudo isto aconteceu, tudo o resto é imaginação.

 

Vejo um esqueleto, ou um homem (não estou certo de quem faz quem), porque é só ossos, mas também porque se mexe como se estivesse vivo.

Está sentado, escreve. Um candeeiro a azeite alumia a mesa tosca de madeira. Coloca a mão no osso da testa. Osso contra osso, ouve-se um som oco. Está indeciso. Depois, após essa breve pausa que é o pensamento, escreve furiosamente até deter-se novamente. Repete e repete. Ao fim de cinco minutos daquilo noto (nota) que se acabou a folha branca. Abana a cabeça, desapontado. Amarrota a carta (pelo menos penso que é uma carta, de despedida) e recomeça numa folha nova.

Infinito é o pensamento, que nunca se acaba, pois não pode pensar que já não o é mais. Foi assim que ele fechou a sua carta de despedida. Agora só falta decidir-se quanto ao seu início.

Sentado, tudo à sua volta é negro, apenas a luz do candeeiro a azeite o sustenta. O esqueleto (ou o homem) não está certo do que acontecerá após terminar aquela carta.  

 

É um monte de ossos. É um homem inteiro.

A despedida acontece quando nos esquecemos de nós próprios, quando olhamos para dentro e já não somos capazes de ver coisa alguma, não porque descobrimos que o conteúdo está vazio, mas porque perdemos o dom da visão.

Foi assim que ele decidiu abrir a carta de despedida. Agora só faltavam as palavras que vão preencher a carta entre o princípio e o fim.

Não, ainda não. Amarrota a folha e atira-a para a escuridão que se encontra à sua direita. Não se ouve barulho algum. A carta foi engolida e desapareceu, para sempre. Foi como se nunca tivesse existido. Depois dele, depois de todos aqueles que hão-de ler estas palavras, depois de todos aqueles a quem foi contada esta história que outros leram, depois. Esta carta de despedida não existiu. 

Decide recomeçar.

 

O azeite está já no mínimo. A luz diminui de intensidade. Ou acabas tu ou acabo eu. O monte de ossos move-se por uma vontade. Sente-se a ansiedade na impaciência de um esqueleto que não pára quieto. Desconforta-se na cadeira. Ameaça levantar-se, mas depois lembra-se que tem medo de se afastar da luz pequena e mergulhar na escuridão que o envolve já. Tem de escrever as letras que enchem a folha entre o princípio e o fim. Ou escreves tu ou escrevo eu. 

Ou escreves tu ou escrevo eu, não torno a avisar. Pega numa folha nova e repete o início e o fim que já conhece. O meio é um buraco branco para o qual perdeu o dom da visão. Esforça-se, sem saber se deve escrever a mentira ou a verdade. Falta-lhe a vontade, e as forças últimas perseguem-no já. Apressa-te. Colocou o lápis na folha branca e depois aguardou que este se mexesse sozinho. Escolheu a mentira. Escolheu a mentira, o cobarde. Apresso-me eu, não merece mais o meu tempo. Aproximo-me, escondido pela escuridão. Seguro na mão a última carta amarrotada. Lanço-me sobre ele e estendo-lhe o sopro que extingue a luz do candeeiro a azeite.  

Deixamos de ver. Aguardo que o monte de ossos se desfaça em sons ocos enquanto tombam no chão. Mas não, nada se ouve.

Estou agora certo; este homem nunca existiu.

 

 

(Não Levo Saudade) 

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publicado às 14:13

«Natureza Morta» Rio 13

por P. Barbosa, em 20.03.13

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publicado às 22:41

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publicado às 17:57

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publicado às 00:04

Vislumbro Uma Ideia de Felicidade

por P. Barbosa, em 14.03.12

 

 

O Mundo passa por mim.
Passa à velocidade de um comboio que me transporta; para um destino.

  

O mundo passa por eles, pelos outros, indiferentes. 
Viro o olhar. Do outro lado.
Duas filas mais à frente. 

A rapariga jovem da cara sarapintada vive a felicidade dos dias novos, sorri e abraça-se ao namorado indiferente.
Sorri, aconchega-se, adormece.

Escrevo; escrevo para não me esquecer.
Vislumbro uma ideia de felicidade, quando olho para a rapariga jovem que se reconforta, que se aconchega.
Vislumbro uma felicidade nova e antiga, que já passou, que nunca tive, maior do que eu;
sempre foi maior do que eu.

A verdade. A realidade; novamente.
Volto para mim, volto para detrás dos meus olhos;
volto para de onde nunca saí

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publicado às 22:58

Sofremos por partes, mas a felicidade é sempre um todo. Dói-me o braço ou a alma
                 [mas nunca fui feliz de uma perna]

Somado, a felicidade é-me equívoco, estatística pequena no universo largo das possibilidades. Dividido, o sofrimento multiplica-se germe
                 [soma descendência pelas três dimensões]

Sobra-me a fuga em frente, incerto se devo sonhar alcançar a primeira
                 [ou sonhar fugir da última]

O todo desmorona-se, sempre. Corro, enfim, cobarde
                 [satisfaço-me com permanecer ao meio]

(Tentativa)

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publicado às 19:10

Sabes, gostava poder olhar-te e sentir que não estou frente a um espelho.

 

Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada. Toco-te para saber se és real, e és. Olho-te para além do reflexo que és, e és nada.

Escondo-me no medo de encontrar essa sobra a cores que representas. Vejo-te repetir aquilo que já fiz; adivinho naquilo que fazes as coisas que um dia farei.

Prefiro não ver.

Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata.

 

A bondade é uma artimanha da iniquidade. A bondade é o conforto do nosso desconforto, e nada mais.

 

A moeda que retiras do bolso tem o tamanho do incómodo que acertou nos teus olhos.

Olhamos a miséria ao nosso lado e incomodamo-nos. Olhamos a miséria ao fundo da rua e incomodamo-nos menos. Olhamos a miséria no horizonte e lançamos um suspiro.

Para lá do horizonte não sofre nem morre ninguém (acredita).

A bondade tem a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.

 

A miséria é esperta.

 

A miséria sabe que jamais terá direito à comida que engorda o porco que se olha ao espelho enquanto palita os dentes.

A miséria sabe que o peso da moeda de oferta tem o tamanho do incómodo colocado em frente ao espelho banhado a prata falsificada.

A miséria quer ser miséria.

A bondade quer ser bondade.

A miséria não quer morrer, desaparecer.

A bondade não quer morrer, desaparecer.

 

Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.

 

Preferimos não ver; e não vemos.

Palitamos os dentes e gastamos o tempo olhando a imagem reflectida no espelho (vejo-te).

Não sabemos que temos a espessura de um vidro. Não sabemos que não vemos. Não Sabemos.

 

A bondade e a miséria sorriem; sorriem.

 

http://pt.scribd.com/doc/36482146/Temos-a-Espessura-de-Um-Vidro-Vulgar-Banhado-a-Prata-Falsificada

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publicado às 11:02

Cobiço Tudo o Que Já Tenho

por P. Barbosa, em 26.02.12

Desdenho tudo o que já escrevi. Encontro-lhe erros de forma e função, desentendimentos comigo mesmo, aborreço-me do que já fui, altero, mudo, refaço, introduzo desentendimentos futuros dos quais me esqueço.

 

Cobiço tudo o que já tenho. O presente é passado, os objectos meus, propriedades, simples ou registadas, olho-as com a indiferença de um peso morto ao qual vivo agarrado. Fecho os olhos e finjo que as não tenho, revisito o desejo que me conduziu até aqui. 

 

É triste ser-se como sou, mas não me atreveria ser outro.

 

Um dia volto, lerei estas palavras e escarnecerei de mim próprio.

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publicado às 17:31

Viagem ao Futuro! (visto de 1994)

por P. Barbosa, em 11.02.12

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publicado às 20:06

Há Quanto Tempo Morreste Tu?

por P. Barbosa, em 10.01.12

 

Olhem bem para mim. Esta não é uma história normal. Não é ficção para entreter. Não é moral que se quer ensinar. Não é uma ideia que se escreve para uma posteridade que a há-de ler. Nada disso. Quando pensei se a devia escrever fiquei na dúvida a quem a devia dirigir: se como uma carta que se escreve a um amigo ou a uma amante, ou se como mensagem de despedida que se deixa para a posteridade. Nessa dúvida fiquei mais de um século, sem entender o porquê de não ser capaz de tomar essa simples decisão, e sem saber o porquê de precisar dessa decisão para escrever o que quer que fosse.

 

Há quanto tempo morreste tu?

 

Olha bem para mim. Não podemos estar vivos, nós os dois, tu e eu, ao mesmo tempo. Se não vives a época em que se atravessa a galáxia no segundo que demora a decorrer um pensamento, então estou a falar para os mortos.

Decidi que aquilo que preciso escrever não deve ser dirigido àqueles que me são contemporâneos, pois nada tenho para lhes dizer, nem para aqueles que ainda estão para vir. Escrevo para os meus antepassados, escrevo para aqueles que, já estando para trás, nada mais podem fazer a não ser ler e calar. Escrevo para os mortos. Escrevo para ti, então.

 

Começa assim:

 

Recebi uma mensagem que me abalou. Dizia apenas:

 

A partir de hoje, és «O Velho».

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publicado às 22:05


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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