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Gostas então dessas bolachas com sabor a fiambre.

Gosto sim.Quer dizer, gosto das bolachas, não tanto da ideia de saber a fiambre.

Porquê?

Sou vegetariana, em princípio.

Em princípio?

Isso.

Como os teus princípios, as bolachas são uma questão de imaginação, percebes?

Imaginação, dizes tu?

Sim, imaginação. Por exemplo, os porcos que dão origem a esse sabor a fiambre.

O que têm os pobres coitados?

Não deram a vida pelo fiambre.

Não?

Não. Imagina tu que essa fábrica de bolachas de que falas é vegetariana.

A fabrica?

Sim.

Não são antes as bolachas?

As bolachas, por inerência.

Não percebo bem o que dizes. Mas continuo a sentir-me culpada com o sabor a fiambre nas bolachas.

Em vez de matarem porcos para fiambre, nessa fábrica esfregam porcos sobre as bolachas.

Como?

Barram-nos, em cima das bolachas, como se fossem manteiga. Vivos. Se prestares atenção à tua língua (enfia-lhe uma bolacha na boca), vais notar o ligeiro travo a estrume no fundo da boca, apenas um ligeiro toque, como se fosse uma espécie de defumado…

Agora que falas nisso… (mastiga sem conseguir engolir ou deitar fora)

É que eles não lavam os porcos quando os barram… para poupar água, estás a ver?

Hum, hum…

Quando ficam limpos devolvem-nos à pocilga, e daí a uma semana trazem-nos de volta e repetem o processo. É uma fábrica, percebes? Em princípio, o que achas?

Na verdade, não sei o que dizer…

Agora já sabes: se algum dia visitares uma pocilga e os porcos estiverem anormalmente limpos, então é porque ali também fabricam bolachas.

Em princípio vou evitar visitar um pocilga…

Em princípio, muito bem.

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publicado às 18:04

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publicado às 16:44

Opportunity: 10 Years on Mars

por P. Barbosa, em 24.01.14

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publicado às 17:41

Não Levo Saudade

por P. Barbosa, em 17.12.13

Adormeci. Acordei. Estava a dar o noticiário na televisão da montra de electrodomésticos. 

 

Adormeci. Acordei. Doía-me o corpo, era escuro, estava num beco que não reconhecia, e um grupo de jovens riam-se muito. De mim. Acharam que eu era parvo. Tenho a certeza de que me acharam parvo.

 

Adormeci. Acordei. Olhei para o lado e o meu velho amigo chorava silenciosamente, disse-lhe, Não achas que o tempo está a passar depressa demais? Adormeci. Acordei. Vi o sol dependurado no céu.

 

Adormeci. Acordei. Está bem?, perguntou-me alguém.

 

Adormeci. Sonhei com o meu pai e com a minha mãe. Acordei. Estava deitado num lugar luminoso, mas em vez do amarelo do sol caía em mim uma luz branca vinda de todos os lados.

 

Não se mexa, disse-me alguém, Está no Hospital de Santa Maria. Estamos a cuidar de si. Não se mexa. Como se chama? Virei o olhar e vi uma cara angélica de bata branca auscultando o meu interior com um estetoscópio.

Aí não há nada, disse-lhe, enquanto ela procurava medir o meu coração. Enrugou a testa. Parou de me auscultar e olhou-me novamente, Como se chama? Lembra-se?

 

Meti a mão ao bolso, trémulo, tirei um velho lenço sujo com as iniciais, M.L., Chamo-me Manuel, o L já não sei o que representa. Não sei o dia certo em que faço anos. Não me lembro já quem é o meu pai e quem foi a minha mãe. Sei que sempre vivi em Benfica. Tenho um amigo chamado António que dorme comigo junto às Portas de Benfica, eu numa caixa de cartão de um frigorífico, ele numa caixa de cartão de uma arca frigorífica.

 

A médica cuidou de mim e mandou os outros cuidarem de mim. Sentia o peso fétido da minha velhice apodrecida. Ninguém se aproximava a não ser para me darem os remédios repetidos que me foram avivando a memória.

 

***

 

Os dias pareciam agora ser mais longos, e já era capaz de acompanhar o lento desfiar da luz do pôr-do-sol nas entre-sombras das persianas na parede defronte da minha cama. Concentrava-me muito, e acreditava que aquele lento mergulho da luz em direcção ao tecto era prova suficiente de que agora me encontrava no mesmo universo em que se encontravam todos os outros.

 

Eu sabia o que tinha. Eu sabia do que padecia. Eu sabia para onde tudo aquilo se encaminhava.

 

Já não me lembro do meu pai, sei apenas que sofre do mesmo mal que eu sofro. Sei que ele me amava, que me levava ao colo, que me levava pelo braço, e que depois de me ter largado na vida, depois de me ter dito que já era homem, abraçou-se a mim e chorou como se despedisse-se para sempre. Consigo recordar essa emoção, os soluços e as lágrimas contidas que caiam no meu ombro. Não me lembro da cara dele. Procuro olhá-lo e apenas vejo uma luz baça e ofuscante, de onde saem as palavras, Agora já és homem, não te esqueças de mim.

 

Sinto saudade.

 

 (Não Levo Saudade)

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publicado às 14:21

«Não Levo Saudade», no Google Play

por P. Barbosa, em 11.11.13

Agora também disponível através do Google Play


Contos:

  • O Quarto Branco
  • Bicho da Pedra
  • Daniela, a Louca

 

Romance:

  • Não Levo Saudade


***

 

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.


***

 

 

 

Romance, 270 páginas

Published: Feb. 18, 2013
Words: 45,071 (approximate)
Language: Portuguese
ISBN: 9781301502349

 

eBook disponível no iBooks, Kobo, Scribd, Kindle, Nook, Goole Play , e no SmashWords.

Espero que gostem.


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publicado às 09:54

Somos destroços e procuramos destroços

por P. Barbosa, em 31.10.13
Somos destroços e procuramos destroços.

Vasculho incessantemente no meio do entulho que chamamos vida, que chamamos corpo, que chamamos alma. Tanto para tão poucas mãos, dois olhos, uma vontade.

Quero saber o que fazer com o pedaço de vida corroída pelo tempo que retiro da gaveta esquecida e secular que existe. Esboroa-se enquanto a olho impávido.

Existe e eu não sei porque existe, porque é um pedaço que não inteira, porque é apenas um pedaço na minha mão tão pequena para tanto que exige. Esboroa-se e eu não me incomodo, ou incomodo-me e imobilizo-me, ou imobilizo-me e aguardo que acabe de se esboroar num ponto final.

Aguardo, sempre.

Hoje foi uma espécie de ponto na minha vida. Não um fim, mas antes uma interrupção involuntária e temporária, trocas de universo, mordaz ironia que promete e faz sofrer. Sorri agora para mim. Fito-a na minha louca estupidez.

O desespero é sempre melhor que o medo, sim, percebo-o agora bem, não é uma teoria, é uma verdade comprovada pelas tripas contorcidas pela vontade do tempo e do espaço que guardo dentro, deste presente que me agarra como uma âncora ao fundo de um oceano impávido sem oxigénio para respirar.

O futuro será o que será, triste estupidez nascente da minha ignorante estupidez. Procuro, agora, equilibrar-me num fio que já lá não está. Procuro equilibrar-me quando é necessário voar.

Estatelar-me no chão, eis o destino premeditado por mim e pelo espaço e tempo que guardo dentro. Oculto essa verdade como se fosse algodão acolchoado, queda amparada pela invisível força de uma determinada gravidade.

Abro as mãos, fecho os olhos, deixo o corpo, a alma, a vida estatelar-se no chão.

Destroços.

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publicado às 01:29

O Quarto Branco

por P. Barbosa, em 18.08.13

O Quarto Branco

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publicado às 11:52

E o ar, não pode faltar o ar...

por P. Barbosa, em 29.04.13

Porquê?
Havendo ideologias e idiotas, havendo comida para comer.
O ódio e o amor também,
E o ar, não pode faltar o ar,
E não nos esqueçamos daquele momento que não sabemos lembrar,
Daquele, quando o coração acabou de dar o batimento,
E fica ali, pendurado, a matutar,
Se vai em frente ou se resolve parar.
Um momento; 
Tenho de olhar.

 

1, 2, 3

Diga lá, como fez?

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publicado às 18:39

Crónica da Morte de um Pai

por P. Barbosa, em 26.04.13

Crónica da Morte de um Pai

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publicado às 18:02

Um Navio É Sempre Um Objecto Improvável

por P. Barbosa, em 24.04.13

Um navio é sempre um objecto improvável; aço que não se resigna a ir ao fundo, montanha improvável flutuando no ar. O mar solto balança o navio de um lado para o outro. Gotas de água que nada podem enquanto se desfazem suicidas contra o casco. Corroem. Dão coices de lado. Cospem-nos sal para cima. Conjuram vento e chuva para nos levar ao fundo.

 

Resignamo-nos a não pensar.

 

Estou no convés. Estou aqui, fez agora duas semanas. Balanço para cima e para baixo. Balanço com o balanço do navio. Balanço com o balanço do navio que balança nas ondas. Não me resigno a ir ao fundo.

 

O mar não tem chão. Tem, lá no fundo que mata; o mar não tem chão. É um ser vivo revolto, inquieto. Bicho virulento que nos puxa para dentro se lhe tocarmos nas mãos líquidas que devoram. Se cair, só saberei nadar durante um tempo. Depois, faltar-me-ão as forças ou a vontade, tanto importa, e desaprenderei de nadar. E se por milagre boiar, o mar líquido encarregar-se-á de convocar criaturas marinhas desejosas de me desmembrar e engolir.

 

Porquê a poesia? Será poesia?

 

Ontem atirámos um homem ao mar. Vivo. Assim, sem mais nem menos.

 

O navio é o mundo. O mar, o resto do universo escuro e medonho onde não sabemos voar. O convés é um continente. A camarata outro. A messe

outro. A ponte de comando outro. É lá que vive o ditador. O navio é o mundo e não existe mundo para além dele. Durante o mês e meio de viagem através do Pacífico, se o vento ajudar, o meu mundo é plano e tem um abismo onde podemos cair. Flutuamos sobre um buraco negro que nos engole se não tivermos cuidado; se quisermos.

 

As regras da física não se aplicam. As regras do homem não se aplicam. Habito um mundo com meia dúzia de metros quadrados que obedece à vontade de um homem louco, que decide atirar homens fora, para o buraco negro, se assim desejar. É desta maneira que o monstro ganha força; o comandante e o mar.

 

Porquê a poesia? Não será antes medo?

 

É a minha primeira vez, e depois do que fiz tenho a certeza de que será a última. A viagem tem um tempo. O Pacífico tem um comprimento. O mundo tem um tamanho logo devorado assim que se avista terra firme. Antes de lá chegarmos o comandante há-de atirar-me borda fora.

 

Ele não me vai perdoar.

 

Ficarei sozinho a flutuar em nada, no silêncio do mar. Hei-de ver o navio encolher e desaparecer no horizonte. O mundo há-de morrer. Sentirei, finalmente, a água. Sentirei o bicho que se prepara para me devorar. Mas vai demorar. E se me acobardar, se fingir desfalecer, se desistir sem sofrer, então o mar trará os monstros de dentes afiados que virão, primeiro, docemente lembrar-me da sua presença, depois, roçar-se educadamente de boca aberta, e for fim experimentar o sabor da minha carne, mas sem matar, primeiro sem matar. Só quando não houver mais medo para sentir é que o golpe final será desferido. Foi assim o pesadelo sonhado. Sempre tive medo do mar fundo. Que estou aqui a fazer?

 

Morrer?

 

Aguardo pelo instante em que o comandante há-de enlouquecer? Surpreendo-os saltando no abismo? Tenho menos de um mês e não sei quanto tempo tenho.

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publicado às 23:51


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Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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