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publicado às 16:44

PREPARAÇÃO

 

Se és sério, então 

um plano maquiavélico tens de ter.

 

O conselho é bom,

mas quem o dá é suspeito,

pois trás mirra, ouro

e incenso,

e quem dá

não oferece,

apenas espera

retorno

em dobro.

 

O monte relvado 
ao lado do sítio

onde julgo

viver

cresce em altura

três centímetros

a cada ano que passa, 

não por causa de um

qualquer

choque de placas tectónicas,

mas sim da merda ininterrupta 

defecada por donos de cães

ausentes, 

que por ali andam

continuamente

sem um plano

maquiavélico

que os possa orientar,

também.

 

E o verde pontilhado

por excrementos,

apenas assinala os lugares

onde homem e animal, 

ambos

seguros por uma trela,

se cruzam e confundem

num só.

 

O receio

não é o de o homem

se enfiar por um caminho

de urtigas,

mas apenas que esteja

consciente

do que é capaz.

 

Algures, no tempo

futuro,

despedaçaremos os 

nossos sonhos

de agora

com prazer,

pois a imagem

idílica

é sempre mais forte

que a realidade.

 

Cuidamos sempre

bem

das nossas ruínas,

é certo.

 

A mentira e a verdade

são lados opostos

de uma faca.

No gume afiado fica a verdade,

no contra-fio a mentira

(ou o oposto, já não estou certo)

 

Nela,

apenas importa

o uso

que se dá ou não dá

à mão que vacila 

de um lado

para o outro,

alma mecânica

e inquieta

entre o poder maquiavélico

da vontade

e a vontade 

do poder maquiavélico,

como aquele

que agora 

me preparo

para executar.

 

A brincadeira não é semântica,

é séria,

e toca fundo 

e rente

ao lugar entre ser

e desaparecer.

 

Tu escolhes, ou não,

a faca e o pão.

 

Por que precisamos de um plano

maquiavélico?

Em devida altura

tudo ficará

mais saliente.

 

Somos, sem dúvida, 

fotografias 

a preto e branco

de tempos idos, 

os nossos sorrisos

e a alegria incontida

vertidas para molduras

estáticas, passados

longínquos que sempre se parecem

com o presente,

só porque se sente,

ridícula e efémera ilusão,

que os séculos vindouros

confirmarão,

quando inóspitos descendentes

de carne e osso

segurarem 

nas suas mãos,

com um sorriso

e apreensão, 

em fotografias pardas ilustradas 

por molduras cromadas,

o passado, 

o presente, 

o futuro.

 

Dizemos «Não».

A nossa condição

de cautela 

é feroz

e cobarde animal,

pois o que nos aflige, 

sempre,

é o plano maquiavélico 

que nos outros

julgamos existir

(e em nós não).

 

Posso provar tudo o que afirmo,

com o ridículo acrescido de que, 

para isso,

não preciso de dizer nada.

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publicado às 17:44

Opportunity: 10 Years on Mars

por P. Barbosa, em 24.01.14

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publicado às 17:41

Não Levo Saudade

por P. Barbosa, em 17.12.13

Adormeci. Acordei. Estava a dar o noticiário na televisão da montra de electrodomésticos. 

 

Adormeci. Acordei. Doía-me o corpo, era escuro, estava num beco que não reconhecia, e um grupo de jovens riam-se muito. De mim. Acharam que eu era parvo. Tenho a certeza de que me acharam parvo.

 

Adormeci. Acordei. Olhei para o lado e o meu velho amigo chorava silenciosamente, disse-lhe, Não achas que o tempo está a passar depressa demais? Adormeci. Acordei. Vi o sol dependurado no céu.

 

Adormeci. Acordei. Está bem?, perguntou-me alguém.

 

Adormeci. Sonhei com o meu pai e com a minha mãe. Acordei. Estava deitado num lugar luminoso, mas em vez do amarelo do sol caía em mim uma luz branca vinda de todos os lados.

 

Não se mexa, disse-me alguém, Está no Hospital de Santa Maria. Estamos a cuidar de si. Não se mexa. Como se chama? Virei o olhar e vi uma cara angélica de bata branca auscultando o meu interior com um estetoscópio.

Aí não há nada, disse-lhe, enquanto ela procurava medir o meu coração. Enrugou a testa. Parou de me auscultar e olhou-me novamente, Como se chama? Lembra-se?

 

Meti a mão ao bolso, trémulo, tirei um velho lenço sujo com as iniciais, M.L., Chamo-me Manuel, o L já não sei o que representa. Não sei o dia certo em que faço anos. Não me lembro já quem é o meu pai e quem foi a minha mãe. Sei que sempre vivi em Benfica. Tenho um amigo chamado António que dorme comigo junto às Portas de Benfica, eu numa caixa de cartão de um frigorífico, ele numa caixa de cartão de uma arca frigorífica.

 

A médica cuidou de mim e mandou os outros cuidarem de mim. Sentia o peso fétido da minha velhice apodrecida. Ninguém se aproximava a não ser para me darem os remédios repetidos que me foram avivando a memória.

 

***

 

Os dias pareciam agora ser mais longos, e já era capaz de acompanhar o lento desfiar da luz do pôr-do-sol nas entre-sombras das persianas na parede defronte da minha cama. Concentrava-me muito, e acreditava que aquele lento mergulho da luz em direcção ao tecto era prova suficiente de que agora me encontrava no mesmo universo em que se encontravam todos os outros.

 

Eu sabia o que tinha. Eu sabia do que padecia. Eu sabia para onde tudo aquilo se encaminhava.

 

Já não me lembro do meu pai, sei apenas que sofre do mesmo mal que eu sofro. Sei que ele me amava, que me levava ao colo, que me levava pelo braço, e que depois de me ter largado na vida, depois de me ter dito que já era homem, abraçou-se a mim e chorou como se despedisse-se para sempre. Consigo recordar essa emoção, os soluços e as lágrimas contidas que caiam no meu ombro. Não me lembro da cara dele. Procuro olhá-lo e apenas vejo uma luz baça e ofuscante, de onde saem as palavras, Agora já és homem, não te esqueças de mim.

 

Sinto saudade.

 

 (Não Levo Saudade)

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publicado às 14:21

«Não Levo Saudade», no Google Play

por P. Barbosa, em 11.11.13

Agora também disponível através do Google Play


Contos:

  • O Quarto Branco
  • Bicho da Pedra
  • Daniela, a Louca

 

Romance:

  • Não Levo Saudade


***

 

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.


***

 

 

 

Romance, 270 páginas

Published: Feb. 18, 2013
Words: 45,071 (approximate)
Language: Portuguese
ISBN: 9781301502349

 

eBook disponível no iBooks, Kobo, Scribd, Kindle, Nook, Goole Play , e no SmashWords.

Espero que gostem.


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publicado às 09:54

Acabemos com os «caga-fumos»

por P. Barbosa, em 14.09.13

 

É impressionante e assustador que um dos pricipais componentes da nossa sociedade «moderna» - o automóvel - seja, na verdade, tecnologia do Séc IXX.

 

É altura de terminarmos de vês com os «caga-fumos». Estamos no século XXI, bolas!

 

O documentário abaixo é excelente.

 

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publicado às 15:25

O Quarto Branco

por P. Barbosa, em 18.08.13

O Quarto Branco

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publicado às 11:52

Um Navio É Sempre Um Objecto Improvável

por P. Barbosa, em 24.04.13

Um navio é sempre um objecto improvável; aço que não se resigna a ir ao fundo, montanha improvável flutuando no ar. O mar solto balança o navio de um lado para o outro. Gotas de água que nada podem enquanto se desfazem suicidas contra o casco. Corroem. Dão coices de lado. Cospem-nos sal para cima. Conjuram vento e chuva para nos levar ao fundo.

 

Resignamo-nos a não pensar.

 

Estou no convés. Estou aqui, fez agora duas semanas. Balanço para cima e para baixo. Balanço com o balanço do navio. Balanço com o balanço do navio que balança nas ondas. Não me resigno a ir ao fundo.

 

O mar não tem chão. Tem, lá no fundo que mata; o mar não tem chão. É um ser vivo revolto, inquieto. Bicho virulento que nos puxa para dentro se lhe tocarmos nas mãos líquidas que devoram. Se cair, só saberei nadar durante um tempo. Depois, faltar-me-ão as forças ou a vontade, tanto importa, e desaprenderei de nadar. E se por milagre boiar, o mar líquido encarregar-se-á de convocar criaturas marinhas desejosas de me desmembrar e engolir.

 

Porquê a poesia? Será poesia?

 

Ontem atirámos um homem ao mar. Vivo. Assim, sem mais nem menos.

 

O navio é o mundo. O mar, o resto do universo escuro e medonho onde não sabemos voar. O convés é um continente. A camarata outro. A messe

outro. A ponte de comando outro. É lá que vive o ditador. O navio é o mundo e não existe mundo para além dele. Durante o mês e meio de viagem através do Pacífico, se o vento ajudar, o meu mundo é plano e tem um abismo onde podemos cair. Flutuamos sobre um buraco negro que nos engole se não tivermos cuidado; se quisermos.

 

As regras da física não se aplicam. As regras do homem não se aplicam. Habito um mundo com meia dúzia de metros quadrados que obedece à vontade de um homem louco, que decide atirar homens fora, para o buraco negro, se assim desejar. É desta maneira que o monstro ganha força; o comandante e o mar.

 

Porquê a poesia? Não será antes medo?

 

É a minha primeira vez, e depois do que fiz tenho a certeza de que será a última. A viagem tem um tempo. O Pacífico tem um comprimento. O mundo tem um tamanho logo devorado assim que se avista terra firme. Antes de lá chegarmos o comandante há-de atirar-me borda fora.

 

Ele não me vai perdoar.

 

Ficarei sozinho a flutuar em nada, no silêncio do mar. Hei-de ver o navio encolher e desaparecer no horizonte. O mundo há-de morrer. Sentirei, finalmente, a água. Sentirei o bicho que se prepara para me devorar. Mas vai demorar. E se me acobardar, se fingir desfalecer, se desistir sem sofrer, então o mar trará os monstros de dentes afiados que virão, primeiro, docemente lembrar-me da sua presença, depois, roçar-se educadamente de boca aberta, e for fim experimentar o sabor da minha carne, mas sem matar, primeiro sem matar. Só quando não houver mais medo para sentir é que o golpe final será desferido. Foi assim o pesadelo sonhado. Sempre tive medo do mar fundo. Que estou aqui a fazer?

 

Morrer?

 

Aguardo pelo instante em que o comandante há-de enlouquecer? Surpreendo-os saltando no abismo? Tenho menos de um mês e não sei quanto tempo tenho.

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publicado às 23:51

Fuc**** Nuts (video)

por P. Barbosa, em 18.04.13

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publicado às 12:31

Vamos dar todos uma salva de palmas

por P. Barbosa, em 14.04.13

Bem-vindo, Sol!

 

Está na altura de por o pézinho na água, de sentir o calor sobre o frio, de espreguissar o encolhimento, de abrir a janela e deixar sair.

 

 

 

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publicado às 09:31


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











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