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Não Levo Saudade

por P. Barbosa, em 17.12.13

Adormeci. Acordei. Estava a dar o noticiário na televisão da montra de electrodomésticos. 

 

Adormeci. Acordei. Doía-me o corpo, era escuro, estava num beco que não reconhecia, e um grupo de jovens riam-se muito. De mim. Acharam que eu era parvo. Tenho a certeza de que me acharam parvo.

 

Adormeci. Acordei. Olhei para o lado e o meu velho amigo chorava silenciosamente, disse-lhe, Não achas que o tempo está a passar depressa demais? Adormeci. Acordei. Vi o sol dependurado no céu.

 

Adormeci. Acordei. Está bem?, perguntou-me alguém.

 

Adormeci. Sonhei com o meu pai e com a minha mãe. Acordei. Estava deitado num lugar luminoso, mas em vez do amarelo do sol caía em mim uma luz branca vinda de todos os lados.

 

Não se mexa, disse-me alguém, Está no Hospital de Santa Maria. Estamos a cuidar de si. Não se mexa. Como se chama? Virei o olhar e vi uma cara angélica de bata branca auscultando o meu interior com um estetoscópio.

Aí não há nada, disse-lhe, enquanto ela procurava medir o meu coração. Enrugou a testa. Parou de me auscultar e olhou-me novamente, Como se chama? Lembra-se?

 

Meti a mão ao bolso, trémulo, tirei um velho lenço sujo com as iniciais, M.L., Chamo-me Manuel, o L já não sei o que representa. Não sei o dia certo em que faço anos. Não me lembro já quem é o meu pai e quem foi a minha mãe. Sei que sempre vivi em Benfica. Tenho um amigo chamado António que dorme comigo junto às Portas de Benfica, eu numa caixa de cartão de um frigorífico, ele numa caixa de cartão de uma arca frigorífica.

 

A médica cuidou de mim e mandou os outros cuidarem de mim. Sentia o peso fétido da minha velhice apodrecida. Ninguém se aproximava a não ser para me darem os remédios repetidos que me foram avivando a memória.

 

***

 

Os dias pareciam agora ser mais longos, e já era capaz de acompanhar o lento desfiar da luz do pôr-do-sol nas entre-sombras das persianas na parede defronte da minha cama. Concentrava-me muito, e acreditava que aquele lento mergulho da luz em direcção ao tecto era prova suficiente de que agora me encontrava no mesmo universo em que se encontravam todos os outros.

 

Eu sabia o que tinha. Eu sabia do que padecia. Eu sabia para onde tudo aquilo se encaminhava.

 

Já não me lembro do meu pai, sei apenas que sofre do mesmo mal que eu sofro. Sei que ele me amava, que me levava ao colo, que me levava pelo braço, e que depois de me ter largado na vida, depois de me ter dito que já era homem, abraçou-se a mim e chorou como se despedisse-se para sempre. Consigo recordar essa emoção, os soluços e as lágrimas contidas que caiam no meu ombro. Não me lembro da cara dele. Procuro olhá-lo e apenas vejo uma luz baça e ofuscante, de onde saem as palavras, Agora já és homem, não te esqueças de mim.

 

Sinto saudade.

 

 (Não Levo Saudade)

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publicado às 14:21

Somos destroços e procuramos destroços

por P. Barbosa, em 31.10.13
Somos destroços e procuramos destroços.

Vasculho incessantemente no meio do entulho que chamamos vida, que chamamos corpo, que chamamos alma. Tanto para tão poucas mãos, dois olhos, uma vontade.

Quero saber o que fazer com o pedaço de vida corroída pelo tempo que retiro da gaveta esquecida e secular que existe. Esboroa-se enquanto a olho impávido.

Existe e eu não sei porque existe, porque é um pedaço que não inteira, porque é apenas um pedaço na minha mão tão pequena para tanto que exige. Esboroa-se e eu não me incomodo, ou incomodo-me e imobilizo-me, ou imobilizo-me e aguardo que acabe de se esboroar num ponto final.

Aguardo, sempre.

Hoje foi uma espécie de ponto na minha vida. Não um fim, mas antes uma interrupção involuntária e temporária, trocas de universo, mordaz ironia que promete e faz sofrer. Sorri agora para mim. Fito-a na minha louca estupidez.

O desespero é sempre melhor que o medo, sim, percebo-o agora bem, não é uma teoria, é uma verdade comprovada pelas tripas contorcidas pela vontade do tempo e do espaço que guardo dentro, deste presente que me agarra como uma âncora ao fundo de um oceano impávido sem oxigénio para respirar.

O futuro será o que será, triste estupidez nascente da minha ignorante estupidez. Procuro, agora, equilibrar-me num fio que já lá não está. Procuro equilibrar-me quando é necessário voar.

Estatelar-me no chão, eis o destino premeditado por mim e pelo espaço e tempo que guardo dentro. Oculto essa verdade como se fosse algodão acolchoado, queda amparada pela invisível força de uma determinada gravidade.

Abro as mãos, fecho os olhos, deixo o corpo, a alma, a vida estatelar-se no chão.

Destroços.

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publicado às 01:29

Qualquer Dia Escolho Um Rumo

por P. Barbosa, em 09.04.13

(...)

 

Qualquer dia escolho um rumo. Antes, quando o meu pai ainda não tinha partido nessa viagem pela galáxia fora, dizia-me, com uma repreensão compreensiva (com um tom de voz que misturava frustração e amor), que devia arranjar uma profissão e uma mulher. Prestava muita atenção às palavras dele, pois sempre as escolheu com a precisão de um relojoeiro suíço. Recordava-me frequentemente que compensava a escassez de palavras com a certeza do que dizia. 

 

Nunca quis ser o que quer que fosse. Ou então sempre tive medo de ser alguma coisa, fosse o que fosse. Sempre achei os caminhos demasiado estreitos (por serem caminhos). Têm bermas fundas que me assustam como o mais alto dos precipícios. Têm encostas íngremes e vias de um só sentido. Sempre preferi os campos abertos. Preciso de espaço, prefiro a ideia de poder olhar em volta e só ter a linha do horizonte como limite para os meus sonhos.

 

(...)

 

Não Levo Saudade 

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publicado às 17:58

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

 

(Não Levo Saudade)

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publicado às 14:39

Não Levo Saudade (eBook)

por P. Barbosa, em 01.01.13

                                                  ***    

 

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.


                                                  *** 

 

 

 

Romance, 270 páginas

Published: Feb. 18, 2013
Words: 45,071 (approximate)
Language: Portuguese
ISBN: 9781301502349

 

eBook disponível no iBooks, Kobo, Scribd, Kindle, Nook, Goole Play , e no SmashWords.

Espero que gostem. 

 

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publicado às 22:18


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











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