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PREPARAÇÃO

 

Se és sério, então 

um plano maquiavélico tens de ter.

 

O conselho é bom,

mas quem o dá é suspeito,

pois trás mirra, ouro

e incenso,

e quem dá

não oferece,

apenas espera

retorno

em dobro.

 

O monte relvado 
ao lado do sítio

onde julgo

viver

cresce em altura

três centímetros

a cada ano que passa, 

não por causa de um

qualquer

choque de placas tectónicas,

mas sim da merda ininterrupta 

defecada por donos de cães

ausentes, 

que por ali andam

continuamente

sem um plano

maquiavélico

que os possa orientar,

também.

 

E o verde pontilhado

por excrementos,

apenas assinala os lugares

onde homem e animal, 

ambos

seguros por uma trela,

se cruzam e confundem

num só.

 

O receio

não é o de o homem

se enfiar por um caminho

de urtigas,

mas apenas que esteja

consciente

do que é capaz.

 

Algures, no tempo

futuro,

despedaçaremos os 

nossos sonhos

de agora

com prazer,

pois a imagem

idílica

é sempre mais forte

que a realidade.

 

Cuidamos sempre

bem

das nossas ruínas,

é certo.

 

A mentira e a verdade

são lados opostos

de uma faca.

No gume afiado fica a verdade,

no contra-fio a mentira

(ou o oposto, já não estou certo)

 

Nela,

apenas importa

o uso

que se dá ou não dá

à mão que vacila 

de um lado

para o outro,

alma mecânica

e inquieta

entre o poder maquiavélico

da vontade

e a vontade 

do poder maquiavélico,

como aquele

que agora 

me preparo

para executar.

 

A brincadeira não é semântica,

é séria,

e toca fundo 

e rente

ao lugar entre ser

e desaparecer.

 

Tu escolhes, ou não,

a faca e o pão.

 

Por que precisamos de um plano

maquiavélico?

Em devida altura

tudo ficará

mais saliente.

 

Somos, sem dúvida, 

fotografias 

a preto e branco

de tempos idos, 

os nossos sorrisos

e a alegria incontida

vertidas para molduras

estáticas, passados

longínquos que sempre se parecem

com o presente,

só porque se sente,

ridícula e efémera ilusão,

que os séculos vindouros

confirmarão,

quando inóspitos descendentes

de carne e osso

segurarem 

nas suas mãos,

com um sorriso

e apreensão, 

em fotografias pardas ilustradas 

por molduras cromadas,

o passado, 

o presente, 

o futuro.

 

Dizemos «Não».

A nossa condição

de cautela 

é feroz

e cobarde animal,

pois o que nos aflige, 

sempre,

é o plano maquiavélico 

que nos outros

julgamos existir

(e em nós não).

 

Posso provar tudo o que afirmo,

com o ridículo acrescido de que, 

para isso,

não preciso de dizer nada.

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publicado às 17:44

Não Levo Saudade

por P. Barbosa, em 17.12.13

Adormeci. Acordei. Estava a dar o noticiário na televisão da montra de electrodomésticos. 

 

Adormeci. Acordei. Doía-me o corpo, era escuro, estava num beco que não reconhecia, e um grupo de jovens riam-se muito. De mim. Acharam que eu era parvo. Tenho a certeza de que me acharam parvo.

 

Adormeci. Acordei. Olhei para o lado e o meu velho amigo chorava silenciosamente, disse-lhe, Não achas que o tempo está a passar depressa demais? Adormeci. Acordei. Vi o sol dependurado no céu.

 

Adormeci. Acordei. Está bem?, perguntou-me alguém.

 

Adormeci. Sonhei com o meu pai e com a minha mãe. Acordei. Estava deitado num lugar luminoso, mas em vez do amarelo do sol caía em mim uma luz branca vinda de todos os lados.

 

Não se mexa, disse-me alguém, Está no Hospital de Santa Maria. Estamos a cuidar de si. Não se mexa. Como se chama? Virei o olhar e vi uma cara angélica de bata branca auscultando o meu interior com um estetoscópio.

Aí não há nada, disse-lhe, enquanto ela procurava medir o meu coração. Enrugou a testa. Parou de me auscultar e olhou-me novamente, Como se chama? Lembra-se?

 

Meti a mão ao bolso, trémulo, tirei um velho lenço sujo com as iniciais, M.L., Chamo-me Manuel, o L já não sei o que representa. Não sei o dia certo em que faço anos. Não me lembro já quem é o meu pai e quem foi a minha mãe. Sei que sempre vivi em Benfica. Tenho um amigo chamado António que dorme comigo junto às Portas de Benfica, eu numa caixa de cartão de um frigorífico, ele numa caixa de cartão de uma arca frigorífica.

 

A médica cuidou de mim e mandou os outros cuidarem de mim. Sentia o peso fétido da minha velhice apodrecida. Ninguém se aproximava a não ser para me darem os remédios repetidos que me foram avivando a memória.

 

***

 

Os dias pareciam agora ser mais longos, e já era capaz de acompanhar o lento desfiar da luz do pôr-do-sol nas entre-sombras das persianas na parede defronte da minha cama. Concentrava-me muito, e acreditava que aquele lento mergulho da luz em direcção ao tecto era prova suficiente de que agora me encontrava no mesmo universo em que se encontravam todos os outros.

 

Eu sabia o que tinha. Eu sabia do que padecia. Eu sabia para onde tudo aquilo se encaminhava.

 

Já não me lembro do meu pai, sei apenas que sofre do mesmo mal que eu sofro. Sei que ele me amava, que me levava ao colo, que me levava pelo braço, e que depois de me ter largado na vida, depois de me ter dito que já era homem, abraçou-se a mim e chorou como se despedisse-se para sempre. Consigo recordar essa emoção, os soluços e as lágrimas contidas que caiam no meu ombro. Não me lembro da cara dele. Procuro olhá-lo e apenas vejo uma luz baça e ofuscante, de onde saem as palavras, Agora já és homem, não te esqueças de mim.

 

Sinto saudade.

 

 (Não Levo Saudade)

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publicado às 14:21

«Não Levo Saudade», no Google Play

por P. Barbosa, em 11.11.13

Agora também disponível através do Google Play


Contos:

  • O Quarto Branco
  • Bicho da Pedra
  • Daniela, a Louca

 

Romance:

  • Não Levo Saudade


***

 

Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres...

 

Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.


***

 

 

 

Romance, 270 páginas

Published: Feb. 18, 2013
Words: 45,071 (approximate)
Language: Portuguese
ISBN: 9781301502349

 

eBook disponível no iBooks, Kobo, Scribd, Kindle, Nook, Goole Play , e no SmashWords.

Espero que gostem.


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publicado às 09:54

Somos destroços e procuramos destroços

por P. Barbosa, em 31.10.13
Somos destroços e procuramos destroços.

Vasculho incessantemente no meio do entulho que chamamos vida, que chamamos corpo, que chamamos alma. Tanto para tão poucas mãos, dois olhos, uma vontade.

Quero saber o que fazer com o pedaço de vida corroída pelo tempo que retiro da gaveta esquecida e secular que existe. Esboroa-se enquanto a olho impávido.

Existe e eu não sei porque existe, porque é um pedaço que não inteira, porque é apenas um pedaço na minha mão tão pequena para tanto que exige. Esboroa-se e eu não me incomodo, ou incomodo-me e imobilizo-me, ou imobilizo-me e aguardo que acabe de se esboroar num ponto final.

Aguardo, sempre.

Hoje foi uma espécie de ponto na minha vida. Não um fim, mas antes uma interrupção involuntária e temporária, trocas de universo, mordaz ironia que promete e faz sofrer. Sorri agora para mim. Fito-a na minha louca estupidez.

O desespero é sempre melhor que o medo, sim, percebo-o agora bem, não é uma teoria, é uma verdade comprovada pelas tripas contorcidas pela vontade do tempo e do espaço que guardo dentro, deste presente que me agarra como uma âncora ao fundo de um oceano impávido sem oxigénio para respirar.

O futuro será o que será, triste estupidez nascente da minha ignorante estupidez. Procuro, agora, equilibrar-me num fio que já lá não está. Procuro equilibrar-me quando é necessário voar.

Estatelar-me no chão, eis o destino premeditado por mim e pelo espaço e tempo que guardo dentro. Oculto essa verdade como se fosse algodão acolchoado, queda amparada pela invisível força de uma determinada gravidade.

Abro as mãos, fecho os olhos, deixo o corpo, a alma, a vida estatelar-se no chão.

Destroços.

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publicado às 01:29


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

Disponível em
iBooks, Google Play, Kobo, Kindle











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