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Ideologias e Idiotas

por P. Barbosa, em 28.12.14

Estão bem umas para os outros.

 

Merecem-se. A ideologia perfeita não tem ideal. Ideal é sinal de fraqueza, prova de que o pensamento necessário não foi completamente executado.

 

Ideologias, teologias, manias; preguiças, conveniências do homem e dos seus ocultos desejos; arranja-lhe os pensamentos, ideias, convencimentos, bulas e mestrados para justificar o que já foi pensado (cospe para o lado).

 

Achamos por bem que sim, que a ideia é boa; boa porque nos convém. Nenhuma ideia desagradável e boa foi ainda inventada, estranha coincidência. Que fazer, então?

 

Os que pensam diferente gritam palavras de ordem e levantam o punho. Erguem barricadas e puxam do gatilho; pensam como toda a gente.

 

E alguns, poucos, apenas encolhem os ombros e seguem em frente: que se atulhem na merda que jorra de um lado e do outro da barricada. Subirei ao topo do monte mais branco e assobiarei para o lado para disfarçar o vento gelado que me queima a pele.

 

Ideologias e idiotas: quem as não tem?

 
 

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publicado às 00:12

Sabes, gostava poder olhar-te e sentir que não estou frente a um espelho.

 

Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada. Toco-te para saber se és real, e és. Olho-te para além do reflexo que és, e és nada.

Escondo-me no medo de encontrar essa sobra a cores que representas. Vejo-te repetir aquilo que já fiz; adivinho naquilo que fazes as coisas que um dia farei.

Prefiro não ver.

Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata.

 

A bondade é uma artimanha da iniquidade. A bondade é o conforto do nosso desconforto, e nada mais.

 

A moeda que retiras do bolso tem o tamanho do incómodo que acertou nos teus olhos.

Olhamos a miséria ao nosso lado e incomodamo-nos. Olhamos a miséria ao fundo da rua e incomodamo-nos menos. Olhamos a miséria no horizonte e lançamos um suspiro.

Para lá do horizonte não sofre nem morre ninguém (acredita).

A bondade tem a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.

 

A miséria é esperta.

 

A miséria sabe que jamais terá direito à comida que engorda o porco que se olha ao espelho enquanto palita os dentes.

A miséria sabe que o peso da moeda de oferta tem o tamanho do incómodo colocado em frente ao espelho banhado a prata falsificada.

A miséria quer ser miséria.

A bondade quer ser bondade.

A miséria não quer morrer, desaparecer.

A bondade não quer morrer, desaparecer.

 

Temos a espessura de um vidro vulgar banhado a prata falsificada.

 

Preferimos não ver; e não vemos.

Palitamos os dentes e gastamos o tempo olhando a imagem reflectida no espelho (vejo-te).

Não sabemos que temos a espessura de um vidro. Não sabemos que não vemos. Não Sabemos.

 

A bondade e a miséria sorriem; sorriem.

 

http://pt.scribd.com/doc/36482146/Temos-a-Espessura-de-Um-Vidro-Vulgar-Banhado-a-Prata-Falsificada

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publicado às 11:02

Subiu para cima do muro do Muro dos Bacalhoeiros e fitou a morta lá em baixo (sorriu). Disse-me, na terceira pessoa, como se falasse de alguém distante enquanto andava equilibrista em cima do muro do muro (os transeuntes olhavam-na), Vitória era jovem, demasiado jovem, dona de uma beleza ainda inacabada (riu-se), quinze anos apenas, mas os homens e as mulheres vorazes não esperam pelo tempo certo, não esperam pela cama certa, não se satisfazem com a quantidade certa, detestam tudo o que é certo, satisfazem-se apenas com os momentos singulares e proibidos; singulares por serem proibidos, proibidos por serem singulares. João e Amélia (a mãe, disse eu baixinho para mim) tinham nomes cândidos e vulgares mas almas vorazes e inacabadas; vorazes por serem inacabadas, inacabadas por serem vorazes. No meio de tudo isto, penso agora, todos eles acabaram devorados pela vida, cada um à sua maneira, todos eles inacabados.

 

Veremos.

 

O presente cimenta-se, o futuro aproxima-se, o passado desvanece. É desta forma que nos concentramos naquilo que é imediato e tomamos as decisões que se impõem; uma faca apontada ao pescoço, por exemplo. Então, o futuro chega-nos de repente, e o presente torna-se saliente.

 

O cansaço não é dos ombros, mas sim dos olhos e das pálpebras, persianas semicerradas que escondem e mostram o mundo, à vez, ora agora vez isto, ora agora vez nada, conveniência do homem, sua salvação até, o que seria de nós se não os pudéssemos fechar.

 

É uma sorte a doença que tenho. O esquecimento perpétuo de que padeço é uma absolvição poderosa. Estou certo de que também eu sou tão inacabado quanto todos os outros, tão mau quanto todos os outros, tão perdido quanto todos os outros. 

 

Veremos. 

 

O esquecimento crónico que me começa agora a assentar tem, apesar de tudo, largas vantagens. Ao esquecer-me de tudo esqueço-me também das coisas más. Estou assim, sempre, a um simples passo da felicidade. Esquecendo-me de tudo torna-se-me impossível mentir. Esquecendo-me de a quem devo lealdade ou favor resta-me a justiça.

 

Por vezes penso que o esquecimento é o futuro da humanidade. E não me digam que precisamos não esquecer para evitar repetir os mesmos erros no futuro. O homem (que não eu) já provou que é tão amnésico quanto eu.

 

Especulo que a humanidade não quer ouvir ou ver. Elaboro a hipótese de que os erros repetidos não são erros repetidos mas tragédias calculadas. Desenvolvo a teoria de que o homem dotado da faculdade da memória perdeu já a capacidade para renascer. Agora só tem medo de morrer.

 

Tiro o meu livrinho do bolso.

 

Escrevo:

 

Teoria (não, Hipótese): O Homem é a memória de si e a memória de si controla o homem. Tudo o resto é um monte que vale nada.

 

Veremos.

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publicado às 23:32

30-06-2011, meia-noite e dez,


Tudo isto aconteceu, tudo o resto é imaginação.

 

Em passo acelerado, firme, no passeio, ela grita, gesticulando com os braços. Ele, mais atrás, vai calmo e sereno, como se não carregasse culpa alguma. Ela volta-se para trás sem parar de andar e grita-lhe, Antes achava-as uma merda e agora enrolas-te com ela. Para ti é tudo igual. Ela grita, para que toda a gente oiça. Ele segue-a, quatro seguros metros atrás, calmo e sereno, como se não fosse com ele que ela grita. 

 

Chegam ao carro. Ela do lado do condutor, ele do lado do passageiro. Não sabem se entram ou se ficam cá fora. Ela atira granadas e morteiros por cima do carro, ele abre a porta e entra. Ali fora não é território seguro. Ela entra também. Fecham as portas com toda a força que a raiva pede. Ela tem raiva, ele finge que tem raiva.

 

Vejo-os, da varanda. Agora, só se ouve o som abafado e baço que atravessa o vidro e o ferro do carro, dela, que continua a gritar, dele, que grita agora também.  A noite é fresca e o casal de namorados luta sem parar. Ela chora (pelo menos penso que chora), põe a cabeça no volante. Ele fala alto e grita também, não se fica atrás. Quando ela desencosta a cabeça do volante é a vez de ele encostar a cabeça no tablier do carro.

Vejo-os, ao longe. Animadas pelo vento, as folhas das árvores não param no bulício fresco que me acaricia a pele (parece que conversam educadamente umas com as outras).

 

Estou sem camisa, encostado à porta da varanda. É por casa do vento que estou sem camisa. Vejo-os, pequenos, sombras. Minúsculos no meu mundo grande, são como formigas enfiadas num carro de brincar, discutindo insignificâncias:  a vida. Ao longe, valem nada. Assisto. Como vai acabar? Ela liga as luzes do carro, ameaça que vai embora, grita-lhe para ele sair. Ele abre a porta, ameaça, mas não sai. Fecha a porta e agarra-lhe pelo braço. Como vai acabar?

 

Vejo os vultos agarrados dentro do carro. Será que se beijam já, ou é ele que a agarra à força? Talvez a mate eu terei de chamar a polícia, dizer-lhes, mais tarde, Sim senhor, foi aquele que está ali.

 

Lemos a história mas apenas o ponto final interessa. Abrimos os olhos e escutamos os arautos da desgraça, o mais que podermos, durante todo o tempo que aguentarmos, mas apenas procuramos o fim, aquele ponto minúsculo no final da folha onde tudo cabe.

 

Ele sai do carro. É um passo arriscado. Dentro do carro é como se estivessem deitados na mesma cama. Agora, assim, ela está liberta de qualquer obrigação conjugal. Caminha, lentamente, até ao banco de jardim a dez passos do carro. Senta-se, põe a cabeça entre os braços, finge que sofre (pelo menos julgo-o assim). Ela tem já os faróis ligados, mas não liga o carro, fica ali, no limbo da indecisão, sem saber ao certo o que perde e o que fica a ganhar. Faz contas.

 

Como irá terminar, tudo?

 

Os minutos voam, ele sentado no banco de jardim, ela sentada no banco do carro. Ninguém sede. O motor é ligado. Espera mais um pouco, como se o carro precisasse de aquecer as válvulas, depois, quando tudo fica demasiado óbvio, mete a marcha atrás, faz a manobra devida e vai-se embora. Ele permanece com a cabeça enfiada entre os braços. Ao fim de um tempo seguro, desmancha o sofrimento e levanta-se. Caminha agora, lento, perdedor, sem saber ao certo que rumo tomar, e grita-lhe, inútil, pois ela é já um ponto final no escuro da noite, Estou farto de ti!

Pergunto-me, secretamente encostado na ombreira da porta da minha varanda, Quando é que isto tudo vai terminar?  

 

Sinto-me um deus pequeno que toma nota da sua própria criação. Abro o computador e escrevo:

 

30-06-2011, meia-noite e dez,

 

Tudo isto aconteceu, tudo o resto é imaginação.

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publicado às 20:23

Grito-lhe. Rasgo o vento com as palavras. Aponto-lhe o dedo ao centro do centro. Digo-lhe, certo de mim.

 

Nunca sei se a palavra que sai me constrói ou destrói. A viagem que escolho nas palavras que emprego tem o destino do destino. Escolho-as na esperança de uma salvação, mas não estou seguro se  cairei no abismo.

Agora não. 

Hoje foi o dia da revelação. Da minha, e de mais ninguém. Escrevo no meu caderninho preto transformado em negro. Há muito tempo que não escrevo no meu caderninho preto. Há muito tempo que escrevo sem escrever. O meu caderninho preto é agora negro como eu dentro. Sigo o trilho de letras fingindo. Sei o que me espera no fim desse caminho escuro. Salvo-me, por agora.

António sabe.

Agora não. Olha-me certo do trajecto e do destino escolhido nas palavras que emprego. Digo-lhe, Não merecem o meu esforço. Empreendo tão grande viagem, eu e tu meu irmão - António, no olhar, não está seguro disso- e depois desprezam-nos quando descobrimos-lhes a verdade. António diz que sim com a cabeça, mas não estou certo se a sua convicção é fruto das minhas palavras, da minha razão na razão, ou do machete afiado e manchado de sangue que seguro na mão. Aponto-o na sua direcção. Grito-lhe, Tenho ou não tenho razão? António diz que sim, com a cabeça. Dá-me razão. Insisto, Temos de matá-los, percebes?

Se soubesse o que sei hoje teria agido de outra maneira. Se souber o que sei hoje, esquecerei tudo ao fim de um tempo,e repetirei tudo novamente. Dia não é dia sem matança. Hoje treinei com o pato que engordava na horta que fica por detrás da casa, amanhã treino com o pastor ou com Catarina França. António não sabe que o sague é do pato que o há-de fazer lamber os beiços logo ao jantar.

Medo e gula vivem lado a lado sem o saberem.

 

 

 

(Não Levo Saudades)

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publicado às 12:32

Ninguém merece a alma que tem

por P. Barbosa, em 04.03.11

Preso por um atilho.

Ninguém merece a alma que tem.
Têm-na de oferta, dívida não pronunciada, mas sempre presente. Chama-se medo.

A corrente que prende chama-se medo. A verdade que me prende chama-se mentira.

Hoje vi um mendigo mendigar junto de outro mendigo. Uma realidade impossível que se tornou realidade. O mendigo olhou para aquela verdade, olhou para o outro mendigo que lhe pedia uma moeda, e não teve mais certeza do universo onde havia chegado.

O atilho transformou-se num baraço laço. Que foi apertando sem se notar. Conveniente vontade. Conveniente realidade.

Fechou os olhos, o mendigo, e deixou a verdade passar. Fechei os olhos também, com o sorriso que fiz ao contemplar aquele outro universo longínquo ao qual não pertencia, regido por uma lei da gravidade que não era.

Se naquele momento tivesse surgido um espelho na minha frente, teria deixado de sorrir. Mas estava já de olhos fechados, protegido de qualquer mal que por ali pudesse andar.

É um truque banal. É uma artimanha da humanidade.

Acautelo-me sempre. Chama-se medo.

Abano a cabeça. Abanas a cabeça. O teu universo é previsível como o vento. Humedeço o dedo com a saliva que aponto no ar. Sinto-o, está ali. É uma verdade banal. Chama-se mentira.

O baraço transforma-se num arame farpado que fere a carne que não te pertence. Pára de sentir a dor que não é tua. Culpado és por sofreres na pele e na carne emprestada. Que fizeste, malvado? Devolve-ma.

Chama-se cobardia. Chama-se medo. Tirano encurralado entre quatro paredes. Sentes os pés soterrados na lama. Sentes o céu cair-te em cima numa bátega de água sôfrega que te quer afogar. Que fizeste, malvado, para merecer? Chama-se medo. Inventas a mentira que te há-de salvar. Chama-se verdade. Que fizeste, malvado?

Devolve-me a verdade. Amanha-te com o medo.

Fica preso por um atilho.

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publicado às 01:07

A Chuva negra que, viva, mata.

por P. Barbosa, em 31.10.10

 

Levanto-me sempre quando recomeça a chuva. Quando ela pára aborreço-me.

 

Fico a olhar o vazio da rua e só vejo nada e a luz amarela dos candeeiros. Fico à espera que recomece o som da água fresca que cai mas só vejo nada; o parado que se monta quando a chuva morre.

 

Pareço morto, pareço aguardar que a chuva me salve desta vida morta que se monta sempre que me dou conta.

 

O fresco é pouco. O frio vivo que me alisa a pele é apenas um prenúncio, um sopro que me arrepia e me faz desejar mais ainda que a chuva venha e leve de uma vez, como numa enxurrada de surpresa, a vida morta que se monta à janela do meu caixão.

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publicado às 19:08

O Demónio

por P. Barbosa, em 26.09.10

Quando acordava não abria os olhos enquanto não pusesse a dentadura falsa. Não queria ver-se sem ela. Andava nu pela casa, exibindo bíceps e peitorais salientes. E fazia-o em movimentos lentos, em frente das dezenas de espelhos que tinha nas paredes.

 

Mas não era essa a sua vaidade. Depilava-se meticulosamente; não tinha um único pêlo no corpo, bronzeava a pele apenas um pouco, apenas o suficiente para lavar o branco, apenas o necessário para que as tatuagens listadas que cobriam o seu corpo - as tatuagens que imitavam a pele de um tigre africano - ondulassem nos músculos do corpo enquanto ele se movia em passos de câmara lenta em frente das dezenas de espelhos espalhados pela casa. Ficava horas naquela encenação, durante o dia, fechado em casa e com as persianas entreabertas. Via os raios de sol que entravam e desenhavam riscas nas paredes, que pareciam avançar com o seu próprio avançar, e ficava naquilo o dia todo, abrindo a boca o mais que conseguia exibindo os caninos falsos de tigre africano.
 

Não comia durante o dia, bebia apenas água gelada engarrafada, limpava o suor do corpo que o calor sufocante do quarto fechado lhe fazia crescer nos sovacos depilados, nas virilhas depiladas, na pele lisa que ondulava riscas de tigre africano em movimentos lentos e teatrais; aquilo tudo não era mais do que a preparação de uma caçada, a construção da ideia que o fazia sair à noite para devorar qualquer gazela que se atravessasse em frente dos seus caninos falsos de tigre africano. Tinha sido a última aquisição da colecção de Jaq. Não falava, não pronunciava palavra. Nunca. Respondia abanando a cabeça que sim ou que não, ou usando uma expressão de indiferença ou interrogação, ou exibindo um sorriso cínico e malicioso; não, não era um sorriso; era uma ideia voraz que lhe tomava conta da vontade. Não, não era uma ideia; era uma satisfação retardada que lhe lembrava a última mulher que tinha sido caçada e devorada. E a próxima a morrer não era mais que a preparação do sorriso cínico de satisfação que montava na cara pintada com bigodes tatuados de tigre africano, enquanto Jaq se aproximava dele e lhe dizia «É a tua vez».

 

Saía de casa embrulhado numa gabardine cinzenta que escondia aquele corpo tatuado fingido animal. Fechava-se nesse casulo para não se deixar ver e para se proteger do mundo exterior que o magoava com uma dor lancinante sempre que uma gota de chuva lhe tocava na pele, sempre que o perfume esvoaçante de uma mulher passava por ele, sempre que um sorriso de alguém lhe atravessasse o olhar. Era a dor de um passado esquecido mas sempre relembrado, era a dor que não se quer sentir mas que sempre volta para nos atormentar, e ele, assim, desde que se lembrava de ser assim, embrulhava-se dentro da sua gabardina cinzenta e suja e punha-se a ruminar ideias de vingança e a planear atalhos para saltar para cima das gazelas indefesas que atravessavam a rua.

 

Como estas pessoas vinham parar ao CC não se sabia bem. Talvez o mundo seja regido não apenas por uma única força da gravidade mas por múltiplas leis de gravitação, que atraem para um centro uns e outros que sejam iguais. E o mundo está repleto de gente de diferente qualidade e feitio que não sabe como chegou aqui. Perdidos na dúvida de um passado que não pode ser relembrado, existem como fantasmas futuros habitando o presente. E a sombra que são, daquilo que virão a ser, é o medo que os transporta para dentro de gabardines cinzentas ou para emoções encenadas que escondem o tigre amedrontado que há em nós. E se uns aí ficam quietos, vida fora, outros há que se consomem na comichão interior até não aguentarem mais, e depois de descoberto o seu vil interior, depois de expostas as cicatrizes na pele listada, terá de abrir a boca e mostrar os seus dentes, saltar para cima daquele que mais próximo se encontrar, saciar-se com o sangue alheio que lhe permita continuar, como um vampiro, como um vampiro que também é um fantasma futuro habitando o presente.

 

Aquele homem, que não tinha nome, era um ciclone do tempo futuro estraçalhado no presente, e que desaparecia num passado escuro que deixava de existir agora e somente existia aqui. Olhado de fora, olhado a partir do céu, era Satanás em pessoa, era o vácuo que suga tudo sem escolha ou comiseração.

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publicado às 23:33

Mensagem para o dono do mundo; vai-te foder

por P. Barbosa, em 25.08.10

Eu sei que não há dono do mundo. Ele é livre como os pardais na primavera.

 

É essa liberdade, essa inconsciência, que usa para praticar as maiores atrocidades humanas.

 

Hoje fui informado que um sobrinha tem um cancro maligno. Uma menina de 6 anos. O mundo perverso aquele em que vivemos: maligno. Cheio de pus que nunca saberá que é pus. Que não se digna a saber que é torpe.

 

À cerca de um ano escrevi um texto para uma pretensa obra em que morria uma menina de 6 anos. Naquele instante, em que escrevi aquilo, pensei se o devia fazer, pois a minha filha também tinha 6 anos. Não acredito em deuses de qualquer formato ou feitio, estou-me a cagar para esse tipo de coisas, acho tudo isso (perdoem-me) uma fraqueza humana.

 

Não acredito em premonições ou coincidências, isso tudo é apenas uma trágica mania do homem que julga que sabe sem saber nada, mas apesar de viver neste estranho formato que se está a cagar para estas coisas todas, não pude evitar de pensar se devia escrever aquilo.

 

Como penso agora se devo escrever isto. Parece que, pelo facto de a estar a escrever, a coincidência que não é, é.

 

 

PS: Mensagem para o dono do mundo; vai-te foder.

 

 

 

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publicado às 23:25

Devo ir, ou devo ficar?

por P. Barbosa, em 27.07.10

...

 

Olhou para tudo o que tinha sido e perguntou-se se a sua vida tinha valido a pena. Se a medida de tudo o que tinha feito e não tinha feito seria suficiente para lhe pôr um sorriso nos lábios ou angústia na alma. Olhou-se no espelho interior, percorrendo imagens de felicidade e tragédia, como quem vê filmes das férias.

 

Mas a realidade era apenas crua; não tinha ninguém, não tinha amor, era um falhado, sem ainda sequer ter começado.

 

Recordou, momentaneamente, a visita que fez em criança a um museu. Um quadro pendurado na parede branca, feito de cacos de loiça de várias cores. Ao perto era apenas isso, uma colecção sem sentido de lixo colado.

 

O seu pai aproximou-se e disse-lhe «Vai para ali e olha de novo». Afastou-se uns cinco metros e os cacos desapareceram, surgindo do caos a face de uma mulher de linhas suaves e lábios pintados de vermelho.

 

Fez um último esforço e olhou para os cacos que seguravam a sua vida. Olhou-os de vários ângulos e distâncias. Não via nada para além de entulho.

 

O destino estava traçado, mas tinha sido outra coisa a traçá-lo. Ele limitava-se a segui-lo. A tristeza apoderou-se de si, descendo cinicamente até às profundidades da sua alma e do seu corpo, estraçalhando com suprema violência toda e qualquer vontade que por ali restasse. Quando chegou ao fundo, quis morrer.

 

A vontade de viver já não queria mais.

 

Decidiu atirar-se da varanda. Arrastou-se até ao quarto, parou e pergunto se o devia fazer.

 

Amanheceu lá fora. O sol oblíquo entrou devagarinho na sua imponência educada, surgindo detrás de uma nuvem de aguaceiro. Aqueceu-lhe a face, e com o calor surgiu novamente  o cansaço da vida, lembrando-lhe ao que vinha.

 

Um pardal pousou no gradeamento da varanda, chilreando alegremente, contente com a vida que a vida lhe dava. Olhou para ele como quem olha para a felicidade dos outros e fica feliz com isso. Gostou do que sentiu.

 

Foi voar com ele.

 

 

...

 

 

Ainda abriu os braços, esperando ver surgir asas como as que foram entregues a Ícaro. Ainda chorou uma lágrima, que saiu com saudades do que já deixava para trás.

 

Depois chegou o chão. As veias rebentaram e a visão encheu-se de vermelho, antes de mergulhar na escuridão.

 

Ainda pensou que estava apenas a adormecer.

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publicado às 21:50


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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