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Gostas então dessas bolachas com sabor a fiambre.

Gosto sim.Quer dizer, gosto das bolachas, não tanto da ideia de saber a fiambre.

Porquê?

Sou vegetariana, em princípio.

Em princípio?

Isso.

Como os teus princípios, as bolachas são uma questão de imaginação, percebes?

Imaginação, dizes tu?

Sim, imaginação. Por exemplo, os porcos que dão origem a esse sabor a fiambre.

O que têm os pobres coitados?

Não deram a vida pelo fiambre.

Não?

Não. Imagina tu que essa fábrica de bolachas de que falas é vegetariana.

A fabrica?

Sim.

Não são antes as bolachas?

As bolachas, por inerência.

Não percebo bem o que dizes. Mas continuo a sentir-me culpada com o sabor a fiambre nas bolachas.

Em vez de matarem porcos para fiambre, nessa fábrica esfregam porcos sobre as bolachas.

Como?

Barram-nos, em cima das bolachas, como se fossem manteiga. Vivos. Se prestares atenção à tua língua (enfia-lhe uma bolacha na boca), vais notar o ligeiro travo a estrume no fundo da boca, apenas um ligeiro toque, como se fosse uma espécie de defumado…

Agora que falas nisso… (mastiga sem conseguir engolir ou deitar fora)

É que eles não lavam os porcos quando os barram… para poupar água, estás a ver?

Hum, hum…

Quando ficam limpos devolvem-nos à pocilga, e daí a uma semana trazem-nos de volta e repetem o processo. É uma fábrica, percebes? Em princípio, o que achas?

Na verdade, não sei o que dizer…

Agora já sabes: se algum dia visitares uma pocilga e os porcos estiverem anormalmente limpos, então é porque ali também fabricam bolachas.

Em princípio vou evitar visitar um pocilga…

Em princípio, muito bem.

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publicado às 18:04

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publicado às 16:44

Ideologias e Idiotas

por P. Barbosa, em 28.12.14

Estão bem umas para os outros.

 

Merecem-se. A ideologia perfeita não tem ideal. Ideal é sinal de fraqueza, prova de que o pensamento necessário não foi completamente executado.

 

Ideologias, teologias, manias; preguiças, conveniências do homem e dos seus ocultos desejos; arranja-lhe os pensamentos, ideias, convencimentos, bulas e mestrados para justificar o que já foi pensado (cospe para o lado).

 

Achamos por bem que sim, que a ideia é boa; boa porque nos convém. Nenhuma ideia desagradável e boa foi ainda inventada, estranha coincidência. Que fazer, então?

 

Os que pensam diferente gritam palavras de ordem e levantam o punho. Erguem barricadas e puxam do gatilho; pensam como toda a gente.

 

E alguns, poucos, apenas encolhem os ombros e seguem em frente: que se atulhem na merda que jorra de um lado e do outro da barricada. Subirei ao topo do monte mais branco e assobiarei para o lado para disfarçar o vento gelado que me queima a pele.

 

Ideologias e idiotas: quem as não tem?

 
 

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publicado às 00:12

PREPARAÇÃO

 

Se és sério, então 

um plano maquiavélico tens de ter.

 

O conselho é bom,

mas quem o dá é suspeito,

pois trás mirra, ouro

e incenso,

e quem dá

não oferece,

apenas espera

retorno

em dobro.

 

O monte relvado 
ao lado do sítio

onde julgo

viver

cresce em altura

três centímetros

a cada ano que passa, 

não por causa de um

qualquer

choque de placas tectónicas,

mas sim da merda ininterrupta 

defecada por donos de cães

ausentes, 

que por ali andam

continuamente

sem um plano

maquiavélico

que os possa orientar,

também.

 

E o verde pontilhado

por excrementos,

apenas assinala os lugares

onde homem e animal, 

ambos

seguros por uma trela,

se cruzam e confundem

num só.

 

O receio

não é o de o homem

se enfiar por um caminho

de urtigas,

mas apenas que esteja

consciente

do que é capaz.

 

Algures, no tempo

futuro,

despedaçaremos os 

nossos sonhos

de agora

com prazer,

pois a imagem

idílica

é sempre mais forte

que a realidade.

 

Cuidamos sempre

bem

das nossas ruínas,

é certo.

 

A mentira e a verdade

são lados opostos

de uma faca.

No gume afiado fica a verdade,

no contra-fio a mentira

(ou o oposto, já não estou certo)

 

Nela,

apenas importa

o uso

que se dá ou não dá

à mão que vacila 

de um lado

para o outro,

alma mecânica

e inquieta

entre o poder maquiavélico

da vontade

e a vontade 

do poder maquiavélico,

como aquele

que agora 

me preparo

para executar.

 

A brincadeira não é semântica,

é séria,

e toca fundo 

e rente

ao lugar entre ser

e desaparecer.

 

Tu escolhes, ou não,

a faca e o pão.

 

Por que precisamos de um plano

maquiavélico?

Em devida altura

tudo ficará

mais saliente.

 

Somos, sem dúvida, 

fotografias 

a preto e branco

de tempos idos, 

os nossos sorrisos

e a alegria incontida

vertidas para molduras

estáticas, passados

longínquos que sempre se parecem

com o presente,

só porque se sente,

ridícula e efémera ilusão,

que os séculos vindouros

confirmarão,

quando inóspitos descendentes

de carne e osso

segurarem 

nas suas mãos,

com um sorriso

e apreensão, 

em fotografias pardas ilustradas 

por molduras cromadas,

o passado, 

o presente, 

o futuro.

 

Dizemos «Não».

A nossa condição

de cautela 

é feroz

e cobarde animal,

pois o que nos aflige, 

sempre,

é o plano maquiavélico 

que nos outros

julgamos existir

(e em nós não).

 

Posso provar tudo o que afirmo,

com o ridículo acrescido de que, 

para isso,

não preciso de dizer nada.

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publicado às 17:44

Opportunity: 10 Years on Mars

por P. Barbosa, em 24.01.14

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publicado às 17:41

Acabemos com os «caga-fumos»

por P. Barbosa, em 14.09.13

 

É impressionante e assustador que um dos pricipais componentes da nossa sociedade «moderna» - o automóvel - seja, na verdade, tecnologia do Séc IXX.

 

É altura de terminarmos de vês com os «caga-fumos». Estamos no século XXI, bolas!

 

O documentário abaixo é excelente.

 

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publicado às 15:25

O Quarto Branco

por P. Barbosa, em 18.08.13

O Quarto Branco

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publicado às 11:52

E o ar, não pode faltar o ar...

por P. Barbosa, em 29.04.13

Porquê?
Havendo ideologias e idiotas, havendo comida para comer.
O ódio e o amor também,
E o ar, não pode faltar o ar,
E não nos esqueçamos daquele momento que não sabemos lembrar,
Daquele, quando o coração acabou de dar o batimento,
E fica ali, pendurado, a matutar,
Se vai em frente ou se resolve parar.
Um momento; 
Tenho de olhar.

 

1, 2, 3

Diga lá, como fez?

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publicado às 18:39

Crónica da Morte de um Pai

por P. Barbosa, em 26.04.13

Crónica da Morte de um Pai

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publicado às 18:02

Um Navio É Sempre Um Objecto Improvável

por P. Barbosa, em 24.04.13

Um navio é sempre um objecto improvável; aço que não se resigna a ir ao fundo, montanha improvável flutuando no ar. O mar solto balança o navio de um lado para o outro. Gotas de água que nada podem enquanto se desfazem suicidas contra o casco. Corroem. Dão coices de lado. Cospem-nos sal para cima. Conjuram vento e chuva para nos levar ao fundo.

 

Resignamo-nos a não pensar.

 

Estou no convés. Estou aqui, fez agora duas semanas. Balanço para cima e para baixo. Balanço com o balanço do navio. Balanço com o balanço do navio que balança nas ondas. Não me resigno a ir ao fundo.

 

O mar não tem chão. Tem, lá no fundo que mata; o mar não tem chão. É um ser vivo revolto, inquieto. Bicho virulento que nos puxa para dentro se lhe tocarmos nas mãos líquidas que devoram. Se cair, só saberei nadar durante um tempo. Depois, faltar-me-ão as forças ou a vontade, tanto importa, e desaprenderei de nadar. E se por milagre boiar, o mar líquido encarregar-se-á de convocar criaturas marinhas desejosas de me desmembrar e engolir.

 

Porquê a poesia? Será poesia?

 

Ontem atirámos um homem ao mar. Vivo. Assim, sem mais nem menos.

 

O navio é o mundo. O mar, o resto do universo escuro e medonho onde não sabemos voar. O convés é um continente. A camarata outro. A messe

outro. A ponte de comando outro. É lá que vive o ditador. O navio é o mundo e não existe mundo para além dele. Durante o mês e meio de viagem através do Pacífico, se o vento ajudar, o meu mundo é plano e tem um abismo onde podemos cair. Flutuamos sobre um buraco negro que nos engole se não tivermos cuidado; se quisermos.

 

As regras da física não se aplicam. As regras do homem não se aplicam. Habito um mundo com meia dúzia de metros quadrados que obedece à vontade de um homem louco, que decide atirar homens fora, para o buraco negro, se assim desejar. É desta maneira que o monstro ganha força; o comandante e o mar.

 

Porquê a poesia? Não será antes medo?

 

É a minha primeira vez, e depois do que fiz tenho a certeza de que será a última. A viagem tem um tempo. O Pacífico tem um comprimento. O mundo tem um tamanho logo devorado assim que se avista terra firme. Antes de lá chegarmos o comandante há-de atirar-me borda fora.

 

Ele não me vai perdoar.

 

Ficarei sozinho a flutuar em nada, no silêncio do mar. Hei-de ver o navio encolher e desaparecer no horizonte. O mundo há-de morrer. Sentirei, finalmente, a água. Sentirei o bicho que se prepara para me devorar. Mas vai demorar. E se me acobardar, se fingir desfalecer, se desistir sem sofrer, então o mar trará os monstros de dentes afiados que virão, primeiro, docemente lembrar-me da sua presença, depois, roçar-se educadamente de boca aberta, e for fim experimentar o sabor da minha carne, mas sem matar, primeiro sem matar. Só quando não houver mais medo para sentir é que o golpe final será desferido. Foi assim o pesadelo sonhado. Sempre tive medo do mar fundo. Que estou aqui a fazer?

 

Morrer?

 

Aguardo pelo instante em que o comandante há-de enlouquecer? Surpreendo-os saltando no abismo? Tenho menos de um mês e não sei quanto tempo tenho.

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publicado às 23:51


Livros e Contos


Com o meu pai aprendi que cada palavra é preciosa. Dizia-me frequentemente, com um sorriso desafiador, Cada palavra é preciosa! A verdade tem uma direcção mas não um destino (não te esqueças). Tudo o que eu digo é mentira, vê se descobres... Nunca descobri a verdade escondida naquelas palavras preciosas.

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